quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O encontro e o celular


“Ai, meu Deus, vou me atrasar!”. O seu cabelo, como acontecia na maior parte das vezes, não estava lhe obedecendo. Olha para o espelho e pensa: “não, não está bom”. Mais uma tentativa: pomada, pente, laquê. Ok. Estava “menos ruim” agora. Válter estava muito ansioso. Depois já de alguns meses sozinho, finalmente tinha um encontro. “Preciso malhar mais...”, fala, em voz alta, ao olhar para o espelho novamente. Estava sozinho em casa e só lhe restavam mais dez minutos para acabar de se arrumar. Escovou os dentes (duas vezes, por precaução), passou mais perfume, deu uma última olhada no espelho. Desceu as escadas.

Eram onze horas em ponto quando, da janela da cozinha, Válter viu um carro estacionar em frente à sua casa. “Pontual”, pensou ele. Sacou rapidamente o seu smartphone do bolso e mandou um SMS: “É você? Buzina!”. Ouviu, imediatamente, duas curtas buzinadas. “Era ele”, constatou. Lucas havia chegado.

Estava em um carro cinza, importado. Válter respirou fundo, abriu a porta do carro e entrou. “E aí, seu chato, vamos dar uma volta então?”, disparou Lucas, sem tirar os olhos do celular que se encontrava em suas mãos. Vestia uma camiseta estilo polo da Hollister – a marca favorita dos gays, pelo menos naquela região – e já foi arrancando com o carro. Válter, por precaução, havia preferido combinar de darem uma volta pela cidade antes de voltarem para a sua casa, assim poderia analisar se não se tratava de um desequilibrado, maníaco, etc. Pelo menos foi isso o que justificou para Lucas. Sabia que era perigoso de qualquer modo, mas não estava com medo. Só queria se certificar de que valia mesmo a pena levar aquele rapaz para dentro de sua casa e, portanto, seria bom um pouco de conversa a fim de chegar a essa certeza.

Ao passarem pela avenida mais movimentada da cidade, o “point” noturno – não que naquele dia houvesse muito movimento, afinal de contas, era uma terça-feira – Lucas comentou estar com fome e resolveu parar em algum lugar para pedir um lanche. O restaurante já estava quase fechando, assim, Lucas perguntou, ainda sem descer de seu carro importado: “Ainda dá tempo de pedir um lanche?”. O funcionário do local analisou rapidamente o veículo em que os dois rapazes estavam e respondeu: “Claro, entrem!”.

Sentaram-se em uma das várias mesas que estavam vazias e Lucas começou a olhar o cardápio. O garçom, um senhor magro, grisalho, de aparência cansada e que, com certeza, já estava contando os minutos para ir embora, chegou à mesa e ficou, com um olhar levemente marcado pelo tédio, esperando os rapazes fazerem o pedido. Válter tinha jantado e não estava com fome. Pediu um suco de laranja sem açúcar. Seu acompanhante pediu o lanche que queria e, assim que o garçom levou o cardápio, retirou seu smartphone da calça e começou a digitar. Ele estava sem internet móvel pois havia esquecido de pagar a conta – assim tinha contado a Válter naquela noite, quando ainda se encontrava em sua casa, antes de combinarem o encontro –, mas o local em que estavam possuía wireless. Portanto, lá estava Lucas a checar seu celular.

“Natural”, imaginou Válter. “Ele deve estar olhando se não há algo de urgente...”. Mas Lucas não largava o celular e também não puxava nenhum assunto. Discretamente, Válter conseguiu ver o que o outro fazia em seu celular: WhatsApp, Facebook, e... Hornet! “Hornet?”, espantou-se. É verdade que eles haviam se conhecido por intermédio do aplicativo Tinder, mas qual era o propósito do rapaz em marcar um encontro, pessoalmente, e não largar o celular? E, ainda por cima, ficar checando o seu Hornet? “Era mais lógico eu ter ficado na minha casa, ele ter ficado na casa dele, e nós conversarmos pelo celular, ué”, constatou, cabisbaixo.

Para ver se Lucas se tocava da situação, Válter também pegou seu celular e começou a usá-lo. O outro nem percebeu, tão absorto que estava com suas próprias redes sociais. “Você é viciado em celular, ein?”, disparou, então, em outra tentativa de chamar a atenção. “Hehehe, nem sou”, Lucas respondeu, novamente sem o encarar. E então, de repente, mirou os olhos de seu companheiro e disse: “Vou ao banheiro, okay?”.

“Oh Céus, que tipo de encontro é esse em que a outra pessoa não larga o celular?”, questionou-se Válter.

Lucas voltou do banheiro, com o celular na mão, ainda digitando. O garçom veio à mesa, com o olhar agora já numa mescla entre tédio e raiva – além dos rapazes, só havia outro casal, um homem e uma mulher, no estabelecimento – e trouxe o lanche e o suco. Mas Lucas pareceu nem perceber a presença do lanche na mesa. Será que a fome havia passado? “Você não vai comer?”, Válter, já um pouco cansado da situação, perguntou. “Ah, vou, verdade”. Largou o celular e, rapidamente, comeu o lanche todo.

Depois de pagarem, Lucas ainda deu uma última olhadela em seu celular e, então, seguiram para o carro. “Viu só, eu não sou nenhum louco”, brincou. Estavam, agora, novamente em frente à casa de Válter. “Você quer entrar?”. “Bom, já que você está me convidando...”.

Válter usou a clássica desculpa de ver um filme, na verdade, um novo seriado gay. Lucas aceitou. Enquanto viam a primeira cena do seriado, Válter, sem prestar a menor atenção, pensava: “Finalmente, um encontro normal!”. Lucas, que estava deitado em seu colo, levantou-se para ir ao banheiro. Assim que voltou, eles se beijaram: “Aí sim”, animava-se Válter, afinal, já fazia um bom tempo que não ficava com alguém. O beijo foi ficando mais intenso, as mãos começaram a percorrer as costas. O clima esquentava. Mordidas no pescoço, primeiras insinuações de tirarem as camisetas. E, então, no meio de todo aquele quente amasso, Lucas pergunta:

- Qual a senha do seu wi-fi?

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A história de Jonamar


Jonamar. “Que nome estranho!”, sempre diziam. Mas era um bonito nome, pelo menos aos olhos de sua querida mãe. “Teu nome termina com AMAR, meu filho. Pode haver verbo melhor para se chamar?”. Entretanto, se tinha algo que Jonamar não conhecia, esse algo era o amor. Amor romântico, amor carnal, essa coisa de “metades da laranja”, de “a tampa da panela”.

Jonamar se interessava pelas garotas. As garotas não se interessavam por Jonamar. Depois de anos, Jonamar resolveu se interessar por garotos. Mas os garotos não queriam amar. O verbo era outro, que também terminava com “ar”...

Depois de tanto ser aproveitado pelos garotos, Jonamar desistiu de amar. Jonamar se deu conta de que o amor romântico eterno, ideal, perfeito, era coisa de TV. Era criado no cinema, propagado pela publicidade, inventado por mentes humanas que nunca haviam amado daquele jeito.

Jonamar aprendeu, então, que ele só poderia, só deveria, amar incondicionalmente a si mesmo. Era isso! Como as garotas se interessariam por ele se Jonamar não se achava interessante? Como os garotos poderiam o amar se o próprio Jonamar não se amava? Jonamar aprendeu a gostar de si mesmo, a conviver bem consigo mesmo, a se divertir com sua própria companhia, a viver sozinho e lidar com a solidão.

Agora Jonamar está pronto para conhecer novas garotas, garotos. Ele já sabe que o amor da televisão não é igual ao da vida real. Jonamar já não espera ser amado. Jonamar ama, Jonamar se ama. 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Uma questão espinhosa

 Então, é que eu estou com algumas espinhas...
Dermatologista 1:
 ROACUTAN!

 Eu já fui a outro dermatologista, mas é que estou com espinhas...
Dermatologista 2:
 Espinhas?! ROACUTAN!!

 Olha, eu já fui a dois outros dermatologistas por causa de espinha, e...
Dermatologista 3:
 Péssimos dermatologistas! Vejo que você continua com espinhas. Espinha em dermatologia só tem um nome.
 Acne?
 ROACUTAN!!!

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

“Padrões” sociais

A loira tem que ser burra.
O gay tem que ser afeminado.
O homem tem que ser fanático por futebol.
A mulher tem que ser má motorista.
A lésbica tem que ser machona. 
A gordinha tem que ser alegre.
A travesti tem que ser prostituta.
A mulher tem que ser boa cozinheira.
O ladrão tem que ser negro. 

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

“Uma lésbica chegou em mim!”


– Vítor, você não sabe o que aconteceu ontem... – começou ela, com ar de suspense.
– O quê? – perguntei, curioso.
– Uma lésbica chegou em mim!
– E daí?
– E daí?! Como assim “e daí”? Uma lésbica, Vítor, uma lésbica!
– E qual o problema?
– Eu não curto, sou hétero.
– Ué, beleza. Era só ter falado pra ela...
– Não, mas o problema não foi só esse. Além de ter vindo falar comigo – e, nesse momento, uma expressão de nojo surgiu em sua face – ela veio se esfregando, dançando até o chão.
– Tá, mais aí você falou que não curtia, certo?
– Sim, mas ela continuou, véi. Que nojo! Ela é lésbica, eu não curto.
– Tá bem, mas ela não sabia que você não curte até você falar...
– Ela chegou se esfregando, relando em mim!
– Olha, ela não sabia que você era hétero. Você podia ser lésbica e ter gostado, não tinha como ela saber. Não tem vários homens que chegam em você também relando, se esfregando? Tenho certeza que sim!
– Sim, tem. E eu não gosto. Acho ridículo.
– Então o “problema” não foi o fato de uma lésbica ter chegado em você. Pense se a situação fosse o contrário: você é lésbica e chega um cara se esfregando em você, dançando até o chão. Ele não sabia que você era lésbica... Você ficaria ofendida do mesmo jeito, acharia um absurdo. O problema então foi o modo como ela te abordou, faltando com respeito, o que você não gostou, e não o fato de ela ser uma lésbica! 
– Ai, ainda assim, era uma lésbica...

segunda-feira, 15 de julho de 2013

CRISE



“Ó, menino, venha cá um bocado, faça o favor!” – chamou-me uma velha senhora, ao se levantar de um banco da praça pela qual eu passava para chegar até a paragem do autocarro. Aparentemente, era uma mendiga: despenteada, com um carrinho nas mãos no qual havia uma caixa, e com um sofrido cobertor (com estampa da bandeira de Portugal) nas costas. Sem saber o porquê – já que nessas situações, como a maior parte das pessoas, a minha atitude é sempre me desvencilhar desses tipos – cheguei próximo à senhora. Ela não me pediu dinheiro. “O menino não me faz companhia? Eu estava ali sentada e até agora não tinha tido nenhum problema. Mas agora passou um homem estranho, tenho medo!”. Ela andava com muita dificuldade, era mesmo um martírio dar três ou quatro passos. “Ó, menino, tu sabes onde é que apanho o autocarro para o Cais de Sodré? Vou até Cascais, na casa de uma madrinha minha, mas não consigo andar até o Cais”. Ela não me pediu dinheiro. Os autocarros para o Cais de Sodré passavam ali mesmo, naquela avenida da praça, mas de que adiantava ela pegá-lo àquele horário? Eram quase três horas da manhã, fazia frio, ventava, as pessoas estavam a passar pela praça uma vez que todos os bares do Bairro Alto já estavam a fechar e os boémios se dirigiam, portanto, às discotecas. Ela não me pediu dinheiro. Sugeri que a senhora aguardasse na rua lateral da praça, onde os táxis ficavam, já que seria mais seguro para ela. “O menino me faz companhia até lá? Estão muito longe os táxis? É que eu não consigo mesmo andar. Desde o Desastre é que não consigo mais andar direito, menino. E hoje já caminhei mais de três horas!”. Fomos a caminhar, muito lentamente, e sempre com pausas, até a rua lateral da praça. Ela não me pediu dinheiro. “Eu já morei em França, menino. Antes de voltar pra cá, estava a trabalhar em Espanha, para uma madame italiana. Já trabalhei em restaurantes, já trabalhei em hotéis. Estava a trabalhar em um hotel em Espanha para essa madame italiana, mas partiram o hotel inteiro, eu vim-me embora pra cá”. Mais uns três ou quatro passos, sempre angariados no carrinho que ela possuía – parecia uma mistura entre um carrinho de bebé e um carrinho de compras de supermercado – e uma pausa. Ela não me pediu dinheiro. “O meu nome é Teresa. Qual é o nome do menino? Vítor? Que nome bonito! Eu sou a Teresa. Eu moro em Faro, menino. O menino conhece? Pois, eu durmo mesmo lá ao pé do aeroporto. Mas agora está perigoso. Tem gente má, menino! Tem gente má. Fazem mal a gente, é perigoso. Eu tenho medo. Moras a quantos anos em Portugal? Ah, e já voltas ao Brasil? Pois, se tens lá os teus pais, é melhor mesmo voltar”. Ela não me pediu dinheiro. Chegamos aos bancos perto do ponto de táxi e ela se sentou. “Tenho os joelhos todos inchados, menino. Desde o Desastre é que já não consigo andar. Quando era rapariga, antes de morar no estrangeiro – já trabalhei em França, Espanha, Equador – eu morava perto do Gulbenkian, o menino conhece? Onde o menino mora? Benfica? É longe, não é? Como é que o menino vai embora? E esse autocarro passa no Cais de Sodré? Ah, de todo modo, ainda é muito cedo, não é? Preciso esperar mais, ainda não deve haver comboio para Cascais”. Ela não me pediu dinheiro. “Que hora são, menino? Vinte pras quatro? Ah, três e vinte... Logo o dia já amanhece. Eu me lembro, quando trabalhava em padarias, e tinha que fazer os pães às três, quatro horas da manhã, de ver o dia a clarear... Ei, moça, onde é que apanho o autocarro para o Cais de Sodré? Não sabes? Pois, tá bem, elas não devem morar cá nessa zona, menino”. As pessoas passavam pela praça, com destino às discotecas, e estranhavam ao ver um jovem rapaz, de sapato e fato a conversar com uma velha senhora, com roupas velhas e um velho carrinho com uma caixa de papelão. Mas as pessoas não diziam nada, só passavam. Olhavam e passavam. Ela não me pediu dinheiro. “Eu tava bem lá até agora, menino. Mas passou um homem estranho, fiquei com medo. Já faz dois dias que não durmo, menino. Eu tenho medo. O homem parecia mau, fiquei com medo. Dois dias que não tomo banho. Eu não gosto da casa lá em Cascais que estou a ir, menino, mas pelo menos eu não pago, não é? Posso tomar um banho e dormir um bocado. Já faz dois dias que não durmo, menino. Sou de Faro, peguei o autocarro até Lisboa, menino. Depois andei, andei três horas. Mas meus joelhos já não aguentam mais, menino. Eu estou com cento e vinte quilos. Desde o Desastre que já não aguento mais”. Ela não me pediu dinheiro. “O menino não quer se sentar? O menino já tem que ir? Ah, tá bem, tens que pegar o autocarro. É que eu estava mesmo a gostar da companhia do menino. Meu nome é Teresa, qual o nome do menino? Vítor? Reze por mim, Vítor. Obrigada, boa noite, tudo de bom, menino”. E eu subi a rua lateral da praça, até a paragem do autocarro. Não conseguia parar de pensar na história da D. Teresa. Via-se que ela não era uma desabrigada desde sempre. Ela havia tido uma vida, tinha trabalhado no exterior, sabia conversar. Tinha modos de quem teve certa educação. Mas, agora, não tinha nada. Não tinha onde dormir, não tinha bem a quem recorrer. Tinha um velho cobertor nas costas, insuficiente para protegê-la do frio. Tinha medo das pessoas. Tinha uma velha caixa de papelão com algumas outras poucas roupas dentro. Tinha um carrinho que fazia como se fosse andador, uma vez que os joelhos e o sobrepeso já não a deixavam caminhar. Tinha umas poucas moedas nas mãos. Mas ela não me pediu dinheiro.  Ela tinha carência de companhia, queria alguém para conversar, para que o tempo passasse mais rápido, para dar-lhe segurança contra os homens maus. E eu segui até a paragem do autocarro, sempre a pensar: “Deus, o que é que eu posso fazer? Posso dar dinheiro, o que, se calhar, vá ajudá-la momentaneamente. Mas e depois? Como ela ficará?” De qualquer modo, não dei dinheiro. Ela devia ter fome, assim como tinha frio. Mas não disse nada sobre comida. Ela não me pediu dinheiro. E eu, que vinha a amaldiçoar a minha própria vida antes de encontrá-la... Eu vi a CRISE, eu vi a materialização da crise, bem ali, diante de mim, a poucos centímetros. Eu vi a personificação humana desta tão falada crise. E a CRISE, a externa, causou em mim grande CRISE, interna. Que fazer? Como reagir? O que pensar? Como agir? Oh, Céus, o que é possível de se fazer? Por que isso? Por quê? Por quê? O autocarro chegou, lotado como sempre. Eram três e meia, em ponto. Entrei, ainda a pensar na D. Teresa. Que destino teria ela? Conseguiria chegar, sozinha, até o Cais de Sodré? Teria mesmo essa “madrinha” em Cascais para oferecer-lhe casa e banho? Ela conseguiria dormir naquela praça, com todas aquelas pessoas a passar? Entrei em casa. Fui ao meu quarto. Tudo o que consegui fazer foi chorar. Chorar por aquela Teresa, ao pensar em quantas e quantas Teresas é que existem aí pelo mundo. E ainda a senhora tinha o mesmo nome de minha avó! E se fosse a minha avó naquela situação? Chorei. Chorei. Chorei. Deitado na cama, chorei compulsivamente, feito uma criança, até já não ter mais forças para chorar. 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A ditadura da água gelada


O sentido da palavra “ditadura” está um pouco banalizado atualmente. Usa-se “ditadura” a toda hora, para designar vários eventos que não são políticos. Isso faz com que a palavra perca o seu significado original, restrito, que, no caso de “ditadura”, estava associada à Política. Essas palavras – “ditadura” não é a única – são o que Stuart Hall denomina “signos sob rasura” e o que Ernesto Laclau chama de “signos flutuantes”.

É muito comum, por exemplo, falar-se da “ditadura da beleza” a fim de se referir ao padrão do que é tido como belo nos dias de hoje, isto é, mulheres altas e magras e homens fortes, com os músculos todos definidos. Se a “ditadura da beleza” faz sentido, já que se sabe a forte pressão que se sofre – em especial os mais jovens – para se atingir esses padrões físicos do que é tido como belo, ao mesmo tempo é possível se verificar usos ridículos da mesma palavra, como a suposta “ditadura gay” a qual muitas pessoas – religiosas ou não – utilizam para se referir à luta dos movimentos minoritários em busca de seus direitos civis.

Entrando no clima da brincadeira, mas para fazer uma crítica pertinente, resolvi escrever sobre a “ditadura da água gelada”. Em todos os estabelecimentos comerciais voltados à alimentação que eu vou, seja no interior ou na capital, sempre peço por uma garrafa de água SEM estar gelada. Eis a resposta que ouço: “Vou verificar se tem... Ah, me desculpe, estão todas no refrigerador, mas não está muito gelada não!”.

É uma raridade quando consigo uma garrafinha de água na temperatura ambiente, seja em uma rodoviária ou em um bem localizado shopping da cidade de São Paulo. E aí eu pergunto: cadê o respeito pelas pessoas que não gostam de tomar água gelada? Eu não tenho meu direito de querer e de ter acesso a uma garrafa de água na temperatura ambiente?

Se fosse só no verão, a época mais quente do ano, que isso acontecesse, ainda seria justificável. No entanto, em pleno outono, e com as temperaturas mais baixas, ainda assim, não é possível se conseguir uma garrafa de água sem estar gelada.

Portanto, lanço aqui o meu manifesto: “ABAIXO À DITADURA DA ÁGUA GELADA! Pelo direito de ter acesso à água em temperatura ambiente”.


Responsáveis pelos estabelecimentos comerciais voltados à alimentação: por favor, deixem sempre algumas garrafinhas de água fora da geladeira, okay?