terça-feira, 20 de janeiro de 2015

São Sebastião: o santo católico protetor dos/as homossexuais


Sebastião, que após seu martírio e morte passaria a ser denominado São Sebastião, nasceu em Narbonne – atualmente localizada na França – no século III. Ainda muito jovem muda-se com a sua mãe e o seu pai para Milão, na Itália, onde crescerá e será educado. Sua mãe era cristã, apesar de àquela época o cristianismo ainda ser proibido no Império Romano, e ensinou os valores cristãos ao seu filho. Seu pai morreu enquanto Sebastião ainda era muito jovem.
            Entrou para o exército do Império Romano e logo se destacou, chegando mesmo a ser chefe da guarda imperial. Diz-se que era um dos soldados que o imperador daquela época, Diocleciano, mais gostava. No entanto, Sebastião tinha que manter em sigilo a sua condição de cristão, uma vez que estes não eram aceitos e eram perseguidos àquelas alturas. Assim, ele possuía uma vida dupla: a de soldado romano exemplar; e a de cristão praticante, isto é, ajudava aos doentes e tinha um comportamento brando com os prisioneiros cristãos.
            Há relatos de que Sebastião, durante a vida, ajudava os leprosos e rezava por eles. Isto lhe rendeu, após sua morte, o título de santo protetor contra as doenças contagiosas e infecciosas.
            Entretanto, Sebastião foi denunciado ao imperador Diocleciano por ser cristão. Como o imperador tinha muito apreço por aquele soldado, deu-lhe a chance de negar o cristianismo, mas Sebastião não aceitou. Assim sendo, o imperador ordenou que ele fosse amarrado a uma árvore e que os arqueiros o atirassem flechas, sem, no entanto, acertar seus órgãos vitais, para que a morte fosse mais lenta e dolorosa. Feito isto, deixaram-no amarrado à árvore.
            Irene (que depois de morta viria a se tornar Santa Irene) foi até o local, a fim de dar um sepultamento digno a Sebastião, e se surpreendeu ao encontrá-lo ainda vivo. Levou-o para sua casa e cuidou de seus ferimentos até que ele se recuperasse.
            Ao invés de se esconder, Sebastião, depois de recuperado, foi procurar o imperador Diocleciano, com a intenção de mostrar-lhe a injustiça que estava a fazer com os cristãos. O imperador, ao ver que ele ainda estava vivo e a defender os cristãos, manda que o espanquem até a morte. Isto acontece no dia 20 de janeiro do ano de 288 e, por causa disto, o dia 20 do mês de janeiro é considerado o dia de São Sebastião.
            Seu corpo é jogado no esgoto, mas Luciana (depois, Santa Luciana), consegue resgatá-lo para sepultá-lo. Antes de o cristianismo ter se tornado a religião oficial do Império Romano, no século IV, com Constantino, Sebastião já era venerado como santo.
            No ano de 680, os restos mortais de Sebastião são transferidos para Roma. Àquela época, a cidade sofria de uma peste. No dia em que os restos mortais chegaram, entretanto, houve o fim da peste, o que rendeu a São Sebastião outro título: o de santo protetor contra as pestes e as epidemias.
           
Além de ser conhecido como o santo protetor contra as doenças infecciosas e contagiosas e como o protetor contra as pestes e epidemias, São Sebastião também é tido como o santo padroeiro dos/das homossexuais. Obviamente, esta denominação foi atribuída pelos próprios gays e lésbicas, e não pela Igreja Católica.
São Sebastião levou uma vida dupla, pois não podia assumir a sua condição de cristão, isto é, ele teve de esconder a sua religiosidade das autoridades romanas, assim como muitos/as homossexuais escondem a sua sexualidade. Ele foi condenado à morte por assumir a sua condição de cristão, perante o imperador Diocleciano, mas não negou a sua identidade, ainda que à custa de sofrimento e sacrifício.
Estes fatos da vida do santo fizeram com que artistas homossexuais, no século XIX, apropriassem-se da sua história para criar uma referência gay no catolicismo, ou seja, um santo que fosse o protetor dos/das homossexuais. Entre estes artistas, o mais famoso foi Oscar Wilde, o qual foi condenado à prisão, em 1895, por “práticas contra a natureza”. Wilde era homossexual assumido e, no cárcere, converteu-se ao catolicismo e passou a adotar o pseudônimo de Sebastian, por ser devoto de São Sebastião.
Outro fato que ajudou na escolha deste santo como protetor dos homossexuais foi por ele, na maior parte das vezes, ter sido pintado – em alguns casos por artistas reconhecidamente gays – como um belo jovem, seminu, amarrado a uma árvore e com pose e expressão muitas vezes consideradas afeminadas.
Por fim, mais um fator que contribui para esta associação de São Sebastião aos homossexuais foi o fato de ele ser considerado o santo protetor contra as doenças infecciosas: se na Idade Média era ele o protetor contra a lepra, hoje em dia ele é tido como o protetor contra a AIDS. E, como se sabe, quando descoberta, a AIDS foi estigmatizada como a “doença dos gays”. 
Portanto, por ter levado uma vida dupla, escondendo a sua condição de cristão, mas, ao mesmo tempo, quando descoberto, tendo a coragem de assumir sua situação ao invés de negá-la; por ser representado, na maior parte das vezes, como um jovem belo e com características afeminadas; e por ser considerado como o santo protetor contra as doenças infecciosas, São Sebastião ficou conhecido como sendo o protetor dos gays e das lésbicas. 

domingo, 30 de novembro de 2014

Ode à Solidão

Já namorei,
agora estou só.
Já convivi com muitos amigos,
no momento, prefiro minha própria companhia.

Descobri que morar sozinho
tem suas vantagens
Que comer só é ótimo
Ir ao cinema sem companhia pode ser interessante.

Não preciso estar cercado de pessoas
todo o tempo
para estar feliz.

Não tenho aversão às pessoas,
mas estou vivendo um momento
em que prefiro estar só. 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

O diálogo complexo


Elx se recusa a se rotular.
Quando lhe perguntam “você é gay?”, responde “não”.
“Hétero?!”
“Também não.”
“Ué, então é assexual?”
“Não, não sou assexual.”
“Ah tá, entendi. Você é bi!”
“Também não, não sou bi.”
“Mas o que você é então?”
“Sou um ser humano que se interessa por outro ser humano, independente de seu gênero.”

Pessoas se apaixonam por pessoas.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O encontro e o celular


“Ai, meu Deus, vou me atrasar!”. O seu cabelo, como acontecia na maior parte das vezes, não estava lhe obedecendo. Olha para o espelho e pensa: “não, não está bom”. Mais uma tentativa: pomada, pente, laquê. Ok. Estava “menos ruim” agora. Válter estava muito ansioso. Depois já de alguns meses sozinho, finalmente tinha um encontro. “Preciso malhar mais...”, fala, em voz alta, ao olhar para o espelho novamente. Estava sozinho em casa e só lhe restavam mais dez minutos para acabar de se arrumar. Escovou os dentes (duas vezes, por precaução), passou mais perfume, deu uma última olhada no espelho. Desceu as escadas.

Eram onze horas em ponto quando, da janela da cozinha, Válter viu um carro estacionar em frente à sua casa. “Pontual”, pensou ele. Sacou rapidamente o seu smartphone do bolso e mandou um SMS: “É você? Buzina!”. Ouviu, imediatamente, duas curtas buzinadas. “Era ele”, constatou. Lucas havia chegado.

Estava em um carro cinza, importado. Válter respirou fundo, abriu a porta do carro e entrou. “E aí, seu chato, vamos dar uma volta então?”, disparou Lucas, sem tirar os olhos do celular que se encontrava em suas mãos. Vestia uma camiseta estilo polo da Hollister – a marca favorita dos gays, pelo menos naquela região – e já foi arrancando com o carro. Válter, por precaução, havia preferido combinar de darem uma volta pela cidade antes de voltarem para a sua casa, assim poderia analisar se não se tratava de um desequilibrado, maníaco, etc. Pelo menos foi isso o que justificou para Lucas. Sabia que era perigoso de qualquer modo, mas não estava com medo. Só queria se certificar de que valia mesmo a pena levar aquele rapaz para dentro de sua casa e, portanto, seria bom um pouco de conversa a fim de chegar a essa certeza.

Ao passarem pela avenida mais movimentada da cidade, o “point” noturno – não que naquele dia houvesse muito movimento, afinal de contas, era uma terça-feira – Lucas comentou estar com fome e resolveu parar em algum lugar para pedir um lanche. O restaurante já estava quase fechando, assim, Lucas perguntou, ainda sem descer de seu carro importado: “Ainda dá tempo de pedir um lanche?”. O funcionário do local analisou rapidamente o veículo em que os dois rapazes estavam e respondeu: “Claro, entrem!”.

Sentaram-se em uma das várias mesas que estavam vazias e Lucas começou a olhar o cardápio. O garçom, um senhor magro, grisalho, de aparência cansada e que, com certeza, já estava contando os minutos para ir embora, chegou à mesa e ficou, com um olhar levemente marcado pelo tédio, esperando os rapazes fazerem o pedido. Válter tinha jantado e não estava com fome. Pediu um suco de laranja sem açúcar. Seu acompanhante pediu o lanche que queria e, assim que o garçom levou o cardápio, retirou seu smartphone da calça e começou a digitar. Ele estava sem internet móvel pois havia esquecido de pagar a conta – assim tinha contado a Válter naquela noite, quando ainda se encontrava em sua casa, antes de combinarem o encontro –, mas o local em que estavam possuía wireless. Portanto, lá estava Lucas a checar seu celular.

“Natural”, imaginou Válter. “Ele deve estar olhando se não há algo de urgente...”. Mas Lucas não largava o celular e também não puxava nenhum assunto. Discretamente, Válter conseguiu ver o que o outro fazia em seu celular: WhatsApp, Facebook, e... Hornet! “Hornet?”, espantou-se. É verdade que eles haviam se conhecido por intermédio do aplicativo Tinder, mas qual era o propósito do rapaz em marcar um encontro, pessoalmente, e não largar o celular? E, ainda por cima, ficar checando o seu Hornet? “Era mais lógico eu ter ficado na minha casa, ele ter ficado na casa dele, e nós conversarmos pelo celular, ué”, constatou, cabisbaixo.

Para ver se Lucas se tocava da situação, Válter também pegou seu celular e começou a usá-lo. O outro nem percebeu, tão absorto que estava com suas próprias redes sociais. “Você é viciado em celular, ein?”, disparou, então, em outra tentativa de chamar a atenção. “Hehehe, nem sou”, Lucas respondeu, novamente sem o encarar. E então, de repente, mirou os olhos de seu companheiro e disse: “Vou ao banheiro, okay?”.

“Oh Céus, que tipo de encontro é esse em que a outra pessoa não larga o celular?”, questionou-se Válter.

Lucas voltou do banheiro, com o celular na mão, ainda digitando. O garçom veio à mesa, com o olhar agora já numa mescla entre tédio e raiva – além dos rapazes, só havia outro casal, um homem e uma mulher, no estabelecimento – e trouxe o lanche e o suco. Mas Lucas pareceu nem perceber a presença do lanche na mesa. Será que a fome havia passado? “Você não vai comer?”, Válter, já um pouco cansado da situação, perguntou. “Ah, vou, verdade”. Largou o celular e, rapidamente, comeu o lanche todo.

Depois de pagarem, Lucas ainda deu uma última olhadela em seu celular e, então, seguiram para o carro. “Viu só, eu não sou nenhum louco”, brincou. Estavam, agora, novamente em frente à casa de Válter. “Você quer entrar?”. “Bom, já que você está me convidando...”.

Válter usou a clássica desculpa de ver um filme, na verdade, um novo seriado gay. Lucas aceitou. Enquanto viam a primeira cena do seriado, Válter, sem prestar a menor atenção, pensava: “Finalmente, um encontro normal!”. Lucas, que estava deitado em seu colo, levantou-se para ir ao banheiro. Assim que voltou, eles se beijaram: “Aí sim”, animava-se Válter, afinal, já fazia um bom tempo que não ficava com alguém. O beijo foi ficando mais intenso, as mãos começaram a percorrer as costas. O clima esquentava. Mordidas no pescoço, primeiras insinuações de tirarem as camisetas. E, então, no meio de todo aquele quente amasso, Lucas pergunta:

- Qual a senha do seu wi-fi?

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A história de Jonamar


Jonamar. “Que nome estranho!”, sempre diziam. Mas era um bonito nome, pelo menos aos olhos de sua querida mãe. “Teu nome termina com AMAR, meu filho. Pode haver verbo melhor para se chamar?”. Entretanto, se tinha algo que Jonamar não conhecia, esse algo era o amor. Amor romântico, amor carnal, essa coisa de “metades da laranja”, de “a tampa da panela”.

Jonamar se interessava pelas garotas. As garotas não se interessavam por Jonamar. Depois de anos, Jonamar resolveu se interessar por garotos. Mas os garotos não queriam amar. O verbo era outro, que também terminava com “ar”...

Depois de tanto ser aproveitado pelos garotos, Jonamar desistiu de amar. Jonamar se deu conta de que o amor romântico eterno, ideal, perfeito, era coisa de TV. Era criado no cinema, propagado pela publicidade, inventado por mentes humanas que nunca haviam amado daquele jeito.

Jonamar aprendeu, então, que ele só poderia, só deveria, amar incondicionalmente a si mesmo. Era isso! Como as garotas se interessariam por ele se Jonamar não se achava interessante? Como os garotos poderiam o amar se o próprio Jonamar não se amava? Jonamar aprendeu a gostar de si mesmo, a conviver bem consigo mesmo, a se divertir com sua própria companhia, a viver sozinho e lidar com a solidão.

Agora Jonamar está pronto para conhecer novas garotas, garotos. Ele já sabe que o amor da televisão não é igual ao da vida real. Jonamar já não espera ser amado. Jonamar ama, Jonamar se ama. 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Uma questão espinhosa

 Então, é que eu estou com algumas espinhas...
Dermatologista 1:
 ROACUTAN!

 Eu já fui a outro dermatologista, mas é que estou com espinhas...
Dermatologista 2:
 Espinhas?! ROACUTAN!!

 Olha, eu já fui a dois outros dermatologistas por causa de espinha, e...
Dermatologista 3:
 Péssimos dermatologistas! Vejo que você continua com espinhas. Espinha em dermatologia só tem um nome.
 Acne?
 ROACUTAN!!!

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

“Padrões” sociais

A loira tem que ser burra.
O gay tem que ser afeminado.
O homem tem que ser fanático por futebol.
A mulher tem que ser má motorista.
A lésbica tem que ser machona. 
A gordinha tem que ser alegre.
A travesti tem que ser prostituta.
A mulher tem que ser boa cozinheira.
O ladrão tem que ser negro.