“Ó,
menino, venha cá um bocado, faça o favor!” – chamou-me uma velha senhora, ao se
levantar de um banco da praça pela qual eu passava para chegar até a paragem do
autocarro. Aparentemente, era uma mendiga: despenteada, com um carrinho nas
mãos no qual havia uma caixa, e com um sofrido cobertor (com estampa da
bandeira de Portugal) nas costas. Sem saber o porquê – já que nessas situações,
como a maior parte das pessoas, a minha atitude é sempre me desvencilhar desses
tipos – cheguei próximo à senhora. Ela não me pediu dinheiro. “O menino não me
faz companhia? Eu estava ali sentada e até agora não tinha tido nenhum
problema. Mas agora passou um homem estranho, tenho medo!”. Ela andava com
muita dificuldade, era mesmo um martírio dar três ou quatro passos. “Ó, menino,
tu sabes onde é que apanho o autocarro para o Cais de Sodré? Vou até Cascais,
na casa de uma madrinha minha, mas não consigo andar até o Cais”. Ela não me
pediu dinheiro. Os autocarros para o Cais de Sodré passavam ali mesmo, naquela
avenida da praça, mas de que adiantava ela pegá-lo àquele horário? Eram quase
três horas da manhã, fazia frio, ventava, as pessoas estavam a passar pela
praça uma vez que todos os bares do Bairro Alto já estavam a fechar e os boémios se
dirigiam, portanto, às discotecas. Ela não me pediu dinheiro. Sugeri que a
senhora aguardasse na rua lateral da praça, onde os táxis ficavam, já que seria
mais seguro para ela. “O menino me faz companhia até lá? Estão muito longe os
táxis? É que eu não consigo mesmo andar. Desde o Desastre é que não consigo
mais andar direito, menino. E hoje já caminhei mais de três horas!”. Fomos a
caminhar, muito lentamente, e sempre com pausas, até a rua lateral da praça.
Ela não me pediu dinheiro. “Eu já morei em França, menino. Antes de voltar pra
cá, estava a trabalhar em Espanha, para uma madame italiana. Já trabalhei em
restaurantes, já trabalhei em hotéis. Estava a trabalhar em um hotel em Espanha
para essa madame italiana, mas partiram o hotel inteiro, eu vim-me embora pra
cá”. Mais uns três ou quatro passos, sempre angariados no carrinho que ela
possuía – parecia uma mistura entre um carrinho de bebé e um carrinho de
compras de supermercado – e uma pausa. Ela não me pediu dinheiro. “O meu nome é
Teresa. Qual é o nome do menino? Vítor? Que nome bonito! Eu sou a Teresa. Eu
moro em Faro, menino. O menino conhece? Pois, eu durmo mesmo lá ao pé do
aeroporto. Mas agora está perigoso. Tem gente má, menino! Tem gente má. Fazem
mal a gente, é perigoso. Eu tenho medo. Moras a quantos anos em Portugal? Ah, e
já voltas ao Brasil? Pois, se tens lá os teus pais, é melhor mesmo voltar”. Ela
não me pediu dinheiro. Chegamos aos bancos perto do ponto de táxi e ela se
sentou. “Tenho os joelhos todos inchados, menino. Desde o Desastre é que já não
consigo andar. Quando era rapariga, antes de morar no estrangeiro – já
trabalhei em França, Espanha, Equador – eu morava perto do Gulbenkian, o menino
conhece? Onde o menino mora? Benfica? É longe, não é? Como é que o menino vai
embora? E esse autocarro passa no Cais de Sodré? Ah, de todo modo, ainda é
muito cedo, não é? Preciso esperar mais, ainda não deve haver comboio para
Cascais”. Ela não me pediu dinheiro. “Que hora são, menino? Vinte pras quatro?
Ah, três e vinte... Logo o dia já amanhece. Eu me lembro, quando trabalhava em
padarias, e tinha que fazer os pães às três, quatro horas da manhã, de ver o
dia a clarear... Ei, moça, onde é que apanho o autocarro para o Cais de Sodré?
Não sabes? Pois, tá bem, elas não devem morar cá nessa zona, menino”. As pessoas
passavam pela praça, com destino às discotecas, e estranhavam ao ver um jovem
rapaz, de sapato e fato a conversar com uma velha senhora, com roupas velhas e
um velho carrinho com uma caixa de papelão. Mas as pessoas não diziam nada, só
passavam. Olhavam e passavam. Ela não me pediu dinheiro. “Eu tava bem lá até
agora, menino. Mas passou um homem estranho, fiquei com medo. Já faz dois dias
que não durmo, menino. Eu tenho medo. O homem parecia mau, fiquei com medo.
Dois dias que não tomo banho. Eu não gosto da casa lá em Cascais que estou a
ir, menino, mas pelo menos eu não pago, não é? Posso tomar um banho e dormir um
bocado. Já faz dois dias que não durmo, menino. Sou de Faro, peguei o autocarro
até Lisboa, menino. Depois andei, andei três horas. Mas meus joelhos já não
aguentam mais, menino. Eu estou com cento e vinte quilos. Desde o Desastre que
já não aguento mais”. Ela não me pediu dinheiro. “O menino não quer se sentar?
O menino já tem que ir? Ah, tá bem, tens que pegar o autocarro. É que eu estava
mesmo a gostar da companhia do menino. Meu nome é Teresa, qual o nome do
menino? Vítor? Reze por mim, Vítor. Obrigada, boa noite, tudo de bom, menino”.
E eu subi a rua lateral da praça, até a paragem do autocarro. Não conseguia
parar de pensar na história da D. Teresa. Via-se que ela não era uma
desabrigada desde sempre. Ela havia tido uma vida, tinha trabalhado no
exterior, sabia conversar. Tinha modos de quem teve certa educação. Mas, agora,
não tinha nada. Não tinha onde dormir, não tinha bem a quem recorrer. Tinha um
velho cobertor nas costas, insuficiente para protegê-la do frio. Tinha medo das
pessoas. Tinha uma velha caixa de papelão com algumas outras poucas roupas
dentro. Tinha um carrinho que fazia como se fosse andador, uma vez que os joelhos e
o sobrepeso já não a deixavam caminhar. Tinha umas poucas moedas nas mãos. Mas
ela não me pediu dinheiro. Ela tinha
carência de companhia, queria alguém para conversar, para que o tempo passasse
mais rápido, para dar-lhe segurança contra os homens maus. E eu segui até a
paragem do autocarro, sempre a pensar: “Deus, o que é que eu posso fazer? Posso
dar dinheiro, o que, se calhar, vá ajudá-la momentaneamente. Mas e depois? Como
ela ficará?” De qualquer modo, não dei dinheiro. Ela devia ter fome, assim como
tinha frio. Mas não disse nada sobre comida. Ela não me pediu dinheiro. E eu,
que vinha a amaldiçoar a minha própria vida antes de encontrá-la... Eu vi a
CRISE, eu vi a materialização da crise, bem ali, diante de mim, a poucos
centímetros. Eu vi a personificação humana desta tão falada crise. E a CRISE, a
externa, causou em mim grande CRISE, interna. Que fazer? Como reagir? O que
pensar? Como agir? Oh, Céus, o que é possível de se fazer? Por que isso? Por
quê? Por quê? O autocarro chegou, lotado como sempre. Eram três e meia, em
ponto. Entrei, ainda a pensar na D. Teresa. Que destino teria ela? Conseguiria
chegar, sozinha, até o Cais de Sodré? Teria mesmo essa “madrinha” em Cascais
para oferecer-lhe casa e banho? Ela conseguiria dormir naquela praça, com todas
aquelas pessoas a passar? Entrei em casa. Fui ao meu quarto. Tudo o que
consegui fazer foi chorar. Chorar por aquela Teresa, ao pensar em quantas e
quantas Teresas é que existem aí pelo mundo. E ainda a senhora tinha o mesmo
nome de minha avó! E se fosse a minha avó naquela situação? Chorei. Chorei.
Chorei. Deitado na cama, chorei compulsivamente, feito uma criança, até já não
ter mais forças para chorar.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
quarta-feira, 12 de junho de 2013
A ditadura da água gelada
O
sentido da palavra “ditadura” está um pouco banalizado atualmente. Usa-se “ditadura”
a toda hora, para designar vários eventos que não são políticos. Isso faz com
que a palavra perca o seu significado original, restrito, que, no caso de “ditadura”,
estava associada à Política. Essas palavras – “ditadura” não é a única – são o
que Stuart Hall denomina “signos sob rasura” e o que Ernesto Laclau chama de “signos
flutuantes”.
É
muito comum, por exemplo, falar-se da “ditadura da beleza” a fim de se referir
ao padrão do que é tido como belo nos dias de hoje, isto é, mulheres altas e
magras e homens fortes, com os músculos todos definidos. Se a “ditadura da
beleza” faz sentido, já que se sabe a forte pressão que se sofre – em especial
os mais jovens – para se atingir esses padrões físicos do que é tido como belo,
ao mesmo tempo é possível se verificar usos ridículos da mesma palavra, como a
suposta “ditadura gay” a qual muitas pessoas – religiosas ou não – utilizam
para se referir à luta dos movimentos minoritários em busca de seus direitos
civis.
Entrando
no clima da brincadeira, mas para fazer uma crítica pertinente, resolvi
escrever sobre a “ditadura da água gelada”. Em todos os estabelecimentos
comerciais voltados à alimentação que eu vou, seja no interior ou na capital,
sempre peço por uma garrafa de água SEM estar gelada. Eis a resposta que ouço: “Vou verificar se tem... Ah, me desculpe, estão todas no refrigerador,
mas não está muito gelada não!”.
É
uma raridade quando consigo uma garrafinha de água na temperatura ambiente,
seja em uma rodoviária ou em um bem localizado shopping da cidade de São Paulo.
E aí eu pergunto: cadê o respeito pelas pessoas que não gostam de tomar água
gelada? Eu não tenho meu direito de querer e de ter acesso a uma garrafa de
água na temperatura ambiente?
Se
fosse só no verão, a época mais quente do ano, que isso acontecesse, ainda
seria justificável. No entanto, em pleno outono, e com as temperaturas mais
baixas, ainda assim, não é possível se conseguir uma garrafa de água sem estar
gelada.
Portanto,
lanço aqui o meu manifesto: “ABAIXO À DITADURA DA ÁGUA GELADA! Pelo direito de ter
acesso à água em temperatura ambiente”.
Responsáveis
pelos estabelecimentos comerciais voltados à alimentação: por favor, deixem
sempre algumas garrafinhas de água fora da geladeira, okay?
quarta-feira, 22 de maio de 2013
A data mais importante e a palavra mais significativa para uma pessoa
As
pessoas gostam de ser lembradas, felicitadas, elogiadas. E se tem uma data em que
elas mais gostam disso, é, claramente, o dia do aniversário. Na verdade, é essa
a atitude que elas esperam nesse contexto. Normalmente, a data mais importante
para um indivíduo é o dia em que ele nasceu, que é quando os seus melhores
amigos lhe felicitam, sua família quer comemorar mais um ano de convivência e a
pessoa se sente feliz por todos lhe ligarem, desejarem boas coisas, quererem
estar juntos e até, às vezes, fazerem surpresas.
Sabendo
da importância que o dia do aniversário tem, eu faço questão de sempre mandar
uma mensagem carinhosa para os meus amigos, em especial para aqueles com os
quais eu mais me identifico, os do círculo mais próximo de amizades. Faço
questão de ligar, quando é possível, escrever algo à mão, por achar mais
significativo entregar um recado com a minha própria caligrafia, ou, pelo
menos, mandar uma mensagem bonita por computador mesmo, ou então um sms por celular.
Nem
todos nossos amigos se lembram de nos felicitar, é verdade. Mas,
mesmo assim, eu continuo fazendo questão de dar os parabéns a eles nos seus
respectivos dias. O aniversário é o “seu” dia, é a data em que você se sente
especial, em que quer ter junto de si as pessoas que mais gosta, são as 24
horas mais significativas do ano para você. Eu sei da importância de mandar ao
menos um simples “Feliz Aniversário!” para meus amigos mais próximos e, por ter
medo de esquecer devido aos afazeres do dia a dia (mesmo sabendo de cor a data
dos aniversários de todos eles), sempre marco, todo ano, na minha agenda, as
datas dos aniversários de todos, para que eu não esqueça mesmo. Hoje em dia,
com o Facebook, nem é preciso anotar na agenda. Basta se conectar nessa rede
social todos os dias (o que já fazemos) e verificar quem está fazendo
aniversário.
Se
é o dia mais importante para a pessoa, a data em que eu posso lhe falar o
quanto gosto dela, o quão especial ela é em minha vida, como eu gosto de
conviver com ela, compartilhar ótimos momentos de risadas, mas também deixar
claro que estou à disposição para os momentos de adversidades, o que me custa
reservar cinco minutos do meu dia para entrar em contato com a pessoa?
Assim
como o dia do aniversário é a data mais importante para uma pessoa, o nome de
alguém é a palavra mais significativa para este indivíduo. Como ressalta Dale
Carnegie, em seu livro “Como fazer amigos e influenciar pessoas”: “Lembre-se de
que o nome de uma pessoa é para ela o som mais doce e mais importante que
existe em qualquer idioma”. Claro que aqui, quando se fala em “nome”, deve-se
entender o jeito como a pessoa gosta de ser chamada, seja o seu nome de
batismo, o seu sobrenome, um apelido, uma abreviação do nome, etc.
No
entanto, como o autor afirma, a maior parte das pessoas não dá muita
importância para o nome dos outros (mas, ao mesmo tempo, ninguém gosta de que
errem o seu nome ou o confundam): “A maioria das pessoas se esquece dos nomes
pela simples razão de não dedicar a esse exercício o tempo e a energia
necessários para concentrar, repetir e gravar indelevelmente os nomes na
memória. Quase todos dão a desculpa de que são muito ocupados”.
Uma
dica simples para não se esquecer do nome de uma pessoa é repeti-lo pelo menos
três vezes assim que você conhecer a pessoa. Então, por exemplo, se você acabou
de entrar em contato com alguém que se chama “Marlene”, repita o nome dela
enquanto estiver conversando: “Mas então, MARLENE, você já tinha estado por
aqui?”; “Me diz uma coisa, MARLENE, você conhece o local onde vai ser o show?”;
“Então está bem, MARLENE, nos encontramos depois”; “Tchau, MARLENE, até mais!”.
Pronto, repetindo o nome da pessoa você vai memorizá-lo mais facilmente. Outra
dica é escrever o nome do sujeito que você acabou de conhecer em um pedaço de
papel logo depois do encontro: ao escrever, e não simplesmente repetir, seu
cérebro tende a memorizar melhor a palavra.
“Devemos
atentar para a mágica que existe num
nome e compreender que esse singular elemento pertence exclusivamente à pessoa
com quem estamos lidando... e a ninguém mais. O nome destaca a singularidade do
indivíduo, tornando-o único entre a multidão. A informação que comunicamos e a
solicitação que fazemos em determinada situação assumem uma importância
especial quando mantemos vivo em nossa mente o nome do indivíduo. Da garçonete
ao diretor, o nome exercerá um efeito mágico enquanto lidamos com as pessoas”.
Podem
reparar em suas vidas que, de fato, faz diferença quando alguém sabe o seu
nome. Fiquei surpreso a última vez que cheguei à agência do banco no qual
possuo uma conta (ia reclamar de um serviço) quando percebi que o gerente se lembrava
do meu nome (e ele lembrava mesmo, porque eu não lhe tinha dado nenhum documento
naquele dia e fazia algum tempo que não ia até à agência). Você sempre se sente
mais importante na aula daquele professor que lhe chama pelo nome...
Todos
gostam de ser lembrados. Todos gostam de se sentir especiais e únicos. Mas será
que todos fazemos isso com os outros? Ou só queremos que façam com a gente?
Será que custa tanto assim se esforçar um pouco mais? Ligue para o seu amigo no
aniversário dele. Se não puder ligar, mande uma mensagem. Mas se lembre dele no
dia que é a data mais importante para ele. Esforce-se ao menos. E se esforce
também para chamar as pessoas pelos respectivos nomes; elas vão se sentir
especiais, diferenciadas, e ficarão, com certeza, mais felizes com você do que
antes.
Portanto,
no dia do aniversário da Maria, do João, da Roberta ou do Antônio, programe-se
para ao menos lhe desejar “Feliz Aniversário, querido(a) amigo(a) Maria/João/Roberta/Antônio!!”.
Sugestão
de leitura:
Capítulo
3 da Parte II do livro “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, de Dale
Carnegie.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
A estratégia de construção de um inimigo comum
Os
Estados Unidos da América se utilizam, desde a época da Guerra da Fria, em sua
política externa, da estratégia de possuírem um inimigo externo. Conforme
escreve Eric Hobsbawm, em seu livro A Era dos Extremos, “um inimigo externo
ameaçando os EUA, não deixava de ser conveniente para governos americanos que
haviam concluído, corretamente, que seu país era agora uma potência mundial”.
Com o fim da União Soviética e, consequentemente, da Guerra Fria, os Estados
Unidos se viram na necessidade de “encontrar” outro inimigo externo. Segundo
Fred Halliday, em artigo publicado na revista Contexto Internacional, em 1994,
o islamismo seria o inimigo da vez; essa ideia foi reforçada após os atentados
terroristas de 11 de setembro de 2001.
Não
é só no âmbito internacional, da política externa, que se recorre à criação de
um inimigo comum; verifica-se o mesmo na esfera nacional. Os evangélicos fundamentalistas,
por exemplo, como afirma Magali Cunha¹, vêm historicamente se utilizando desse
artifício: “Exércitos precisam de inimigos. A teologia de um Deus Guerreiro e
Belicoso sempre esteve presente na formação fundamentalista dos evangélicos
brasileiros, compondo o seu imaginário e criando a necessidade da identificação
de inimigos a serem combatidos. Historicamente a Igreja Católica Romana sempre
foi identificada como tal e sempre foi combatida no campo simbólico mas também
no físico-geográfico. Da mesma forma as religiões afro-brasileiras também
ocupam este lugar, especialmente, no imaginário dos grupos pentecostais”.
Como
no caso dos Estados Unidos, o inimigo criado pelos evangélicos fundamentalistas
também se modificou ao longo do tempo e hoje, certamente, conforme afirma
Magali Cunha, são os homossexuais. A fim de se verificar essa constatação,
basta olhar para os discursos do pastor Marco Feliciano, presidente da Comissão
de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara Federal. Presidente, aliás,
cujo primeiro projeto proposto foi sobre a autorização para que a “cura gay”
possa ser feita por parte dos psicólogos (que, caso seja aprovado, será um
retrocesso de, pelo menos, 30 anos na história da Psicologia). Além disso,
pode-se verificar que os evangélicos fundamentalistas elegeram os homossexuais
como o maior inimigo atual ao ter acesso às declarações de outro pastor muito
conhecido dos brasileiros: Silas Malafaia. Por fim, para ficar com um último
exemplo, bem recente: ontem foi divulgado que a Frente Evangélica, que reúne os
evangélicos do Congresso Nacional, está discutindo uma medida contra o ato do
CNJ (Conselho Nacional de Justiça) que aprovou, também ontem, resolução
obrigando todos os cartórios do Brasil a celebrar o casamento civil entre
pessoas do mesmo sexo (a união estável, vale lembrar, já era garantida desde a
manifestação favorável em maio de 2011, pelo Supremo Tribunal Federal).
A
pergunta que resta, então, tanto no caso da política externa norte-americana,
como na atitude dos evangélicos fundamentalistas no Brasil, é: por que se cria,
constrói-se, elege-se, um inimigo comum àquele grupo?
Trata-se
de uma questão identitária. Não existe recurso mais favorável para dar coesão a
um grupo, para uni-lo, do que um inimigo comum, algo/alguém a ser combatido,
perseguido. Nos casos mencionados, a criação do um inimigo é baseada em construções
sociais feitas ao longo do tempo (“a homossexualidade é errada, é coisa do
Diabo”) ou em generalizações perigosas (“todos os islâmicos são terroristas e
querem acabar com os Estados Unidos da América”). Mas o fato é que esse inimigo
imaginado confere força ao grupo, uma vez que dá a ele coesão, isto é, os
indivíduos daquele grupo passam a pensar, em sua maioria, da mesma maneira, o
que facilita um plano de ação, propostas políticas, etc (como uma guerra, por
exemplo, no caso da política externa estadunidense).
Uma
identidade sempre precisa de uma alteridade, ou de alteridades, para se
constituir. Ou seja, necessitamos dos outros para saber quem somos e quem não
somos. Portanto, a identidade sempre se dá em uma interação com a alteridade, o
outro, o diferente. Afinal de contas, as identidades não são fechadas,
imutáveis, absolutas, permanentes; pelo contrário, elas estão em constante processo
de adaptação, de modificação, o que acontece, em especial, justamente devido a esse
contato com os outros.
A
estratégia de se construir um inimigo comum, entretanto, não entende a
identidade em uma relação de interação com a alteridade, com o diferente,
aquele que não é o que eu sou. Essa estratégia considera a alteridade (o
diferente) em uma relação de conflito, ou seja, aquele que não é como eu sou
(ocidental; heterossexual; etc) é menos, é inferior, é errado aos olhos de Deus
e, portanto, deve ser combatido e perseguido.
É
importante ressaltar que as identidades podem, sim, levar a conflitos.
Entretanto, elas não precisam necessariamente ter esse destino. Pode-se
aprender muito com aquele que não é como eu sou, que pensa de uma maneira
diferente, age de outro modo, tem outras crenças, veste-se de um jeito diverso
do meu ou se relaciona com pessoas com as quais eu não me relaciono.
Mas
lidar com a diferença, com as alteridades, é difícil. A diferença incomoda, faz
pensar se de fato nossas Verdades são as “verdadeiras”, se a nossa visão de
mundo é A visão de mundo. Os seres humanos, no geral, seja individualmente,
seja em grupo, tem muita dificuldade em lidar com a diversidade, já que ela
exige reflexão, análise e, muitas vezes, a constatação de que se estava
equivocado, ou então, ao menos, de que existem outras maneiras possíveis de se
fazer determinadas ações ou de se encarar certas realidades. Por isso é que se
tenta tornar todos iguais, iguais a MIM, para que EU possa entender, para que faça
sentido na MINHA concepção...
¹Magali
do Nascimento Cunha é jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. O trecho
foi retirado de seu artigo “O que se esconde atrás do caso Marco Feliciano da
Comissão de Direitos Humanos”, disponível em http://leonardoboff.wordpress.com/2013/05/09/o-que-se-esconde-atras-do-caso-marco-feliciano-da-comissao-de-direitos-humanos/
quarta-feira, 8 de maio de 2013
O biológico e o cultural
Os humanos são seres
biológicos e também seres culturais. Isso pode, em um primeiro momento, parecer
uma constatação básica, primária, banal. No entanto, é por não se ter total
clareza acerca dessa dupla caracterização do que é o humano que muitos
fenômenos são visto como anormais, ridículos ou “bárbaros”. Se todos os homens
são seres biológicos, ou orgânicos, e precisam comer, dormir, respirar, isto é,
possuem funções vitais, por que os hábitos entre diferentes grupos sociais são
tão diversos uns dos outros?
A resposta está justamente no fato de que os humanos são
também culturais, além de seres biológicos, como explica o antropólogo Roque
Laraia: “Não se pode ignorar que o homem, membro proeminente da ordem dos
primatas, depende muito de seu equipamento biológico. Para se manter vivo,
independente do sistema cultural ao qual pertença, ele tem que satisfazer um
número determinado de funções vitais, como a alimentação, o sono, a respiração,
a atividade sexual etc. Mas, embora estas funções sejam comuns a toda a
humanidade, a maneira de satisfazê-la varia de uma cultura para outra. É esta
grande variedade na operação de um número tão pequeno de funções que faz com
que o homem seja considerado um ser predominantemente cultural”.
Alimentar-se, por exemplo, é uma necessidade biológica
que todos os seres humanos, de todos os lugares do planeta, possuem.
Entretanto, o que se come e a maneira pela qual se alimenta são características
culturais e, portanto, específicas para cada grupo humano. As rãs são
consideradas iguarias na França, mas parece ser grande absurdo para um
brasileiro comer esse anfíbio. A carne de vaca, imprescindível nos churrascos
brasileiros, é proibida aos hindus. Do mesmo modo, a carne de porco não é
permitida a alguns povos por questões religiosas.
A maneira pela qual se alimenta também é variável de
localidade para localidade. Se os brasileiros normalmente se utilizam de garfo
e faca, aos japoneses é mais comum o uso de palitos (hashi). E outras
sociedades preferem utilizar as próprias mãos para se alimentar. Além disso, o
ato de comer pode ser público para algumas culturas, ou uma atividade privada
para outras. Um arroto após a refeição pode ser entendido como um sinal de que
a comida estava boa ou, em outro contexto cultural, ser um sinal de má
educação.
Dar à luz é um ato biológico e restrito aos seres humanos
do sexo feminino. A maneira como se faz o nascimento de um bebê, entretanto,
pode variar bastante no que diz respeito à posição em que a mãe se encontra
durante esse ato: estamos acostumados a ver a mãe deitada sobre as costas, mas
entre algumas tribos indígenas a posição convencional é de cócoras. É possível
se pensar, ainda, em partos que acontecem com a mãe estando em pé.
Os exemplos de diferenças culturais são infinitos. Variam
as formas como as pessoas comem, como dormem (em camas, em redes, etc), a
maneira como têm relações sexuais, as bebidas que tomam, etc. O que deve ser
evidenciado, portanto, é que o ser humano, apesar de biológico, é um ser
predominantemente cultural, ou seja, o comportamento humano dos sujeitos de uma
cultura dependem de um aprendizado social a que eles estão submetidos.
Por que se faz relevante ressaltar o componente cultural
do humano? Ora, que o ser humano é biológico é evidente: todos precisam dormir,
comer, beber, descansar. Muitos, entretanto, tentam minimizar os efeitos da
cultura na vida dos indivíduos, sobrevalorizando a biologia. Esses indivíduos
tendem a ver como “naturais” várias questões que, na verdade, são culturais. E
o problema está quando se tende a ver como natural a sua própria prática
cultural (como comer carne de vaca, por exemplo, ou usar talheres durante as
refeições) e como “anormais”, ridículas ou inferiores as práticas culturais dos
outros (por exemplo comer rãs ou utilizar as próprias mãos para se alimentar
durante as refeições).
Sabendo, pois, que a partir de uma pequena quantidade de
funções vitais, ou seja, biológicas, os seres humanos de diversos grupos
desenvolveram maneiras diferentes de satisfazê-las, criando suas próprias
culturas, torna-se evidente que a maioria das práticas humanas são sociais,
isto é, são aprendidas durante o processo de socialização (que começa na
família, continua na escola, etc). Tendo essa premissa em mente, não faz
sentido considerar todas as práticas que são diferentes das nossas como sendo
“bárbaras”, inferiores ou ridículas.
Somos todos seres biológicos. Mas somos seres biológicos
que produzimos cultura, sendo também, portanto, seres culturais.
Sugestão
de leitura:
-
Livro “Cultura: um conceito antropológico”, de Roque de Barros Laraia.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
A Vida de Mana Lou - número 1 (15/01/2010)
Ela acorda, todos os dias, às 4 horas da manhã. “Ah, essa vida não é fácil, não”. Mas, pelo menos, ela ganhava bem. O dia anterior havia sido o quinto dia útil, então ela resolveu dar uma olhada, através da internet, para confirmar se o salário já estava em sua conta. Alguns minutos depois, a sua grande decepção: “Não acredito! Canalhas! Faço hora extra todos os dias e não recebo por isto. E, além de tudo, ainda não recebi o aumento que faz três meses que eles me prometeram! Que droga de vida, continuar ganhando míseros 15 mil reais!”
Num estresse total, arrumou-se e se dirigiu até o serviço, uma vez que às sete e meia já tinha que estar totalmente pronta, no estúdio. Ela entrava no ar diariamente (exceto aos domingos) às oito horas da manhã. Mas, para que tudo ficasse pronto a tempo, a jornalista, que era também editora e âncora do telejornal, tinha que chegar ao serviço às 5 horas da manhã. “Só mesmo muita maquiagem pra dar uma escondida nestas olheiras”.
Notícias do dia: final de semana será de chuva (“Meu São Pedro, será que não vai parar de chover mais este ano?”), presos fazem rebelião em uma penitenciária, quatro agentes são reféns (“Novidade! Todo ano isso acontece mesmo...”); fora estas notícias, só da Haiti, Haiti e mais Haiti (“Bom, pelo menos a tragédia é grande, e nós fomos os primeiros a mandar correspondentes internacionais, então a audiência de hoje será alta”).
Antes de entrar ao estúdio, a jornalista havia ligado na garagem de carros. “Ninguém atende. Fechada, ainda? Mas já são cinco horas da manhã! Será que este povo não trabalha, não?!”. Seu sentimento era ruim. Ela sabia que, sem o desejado e prometido aumento salarial, não poderia comprar seu sonho de consumo dos últimos dois meses: uma Mitsubishi Pajero zero quilômetros. “O jeito vai ser continuar andando neste carro modelo 2008 mesmo!”
Telejornal no ar, ela começa a enfrentar os 45 minutos mais estressantes do seu dia. Sendo âncora, ela tinha que estar sempre cuidadosamente impecável, tomar cuidado com as palavras e com a dicção, para que nenhuma gafe fosse cometida, prestar atenção em qual câmera deveria focar para dar a notícia. “Ah, e é claro, não demonstrar a menor reação, fosse a notícia que fosse”. Isso, entretanto, ela não havia aprendido nos seus anos de universitária, na Pontifícia Universidade Católica. “Este é o meu diferencial. Minha maneira de apresentar”.
“Bom dia. Já estamos no ar com os destaques do dia 15 de janeiro de 2010, o dia em que o corpo da médica Zilda Arns será velado, em Curitiba, após ser trazido do Haiti, onde, durante o terremoto que assolou o país, a fundadora da Pastoral da Criança faleceu. E, além disto: ONU afirma que 300 mil haitianos estão desabrigados e cerca de 10% da capital Porto Príncipe está destruída; catorze militares brasileiros mortos no Haiti, outros quatro continuam desaparecidos; final de semana será de mais chuva; presos se rebelam no Paraná e fazem quatro agentes penitenciários como reféns!”
“Só desgraça. Que beleza! Audiência lá em cima hoje. Ainda bem que o que aconteceu no Haiti foi esta semana, porque se fosse semana passada ia coincidir com as tragédias de desabamento, e esta semana não teríamos novidades. Como o povo esquece rápido das notícias. Ninguém se lembra mais da tragédia brasileira. Certo estava meu professor Antônio que nos alertava que quanto maior a desgraça, quanto mais fotos chocantes e declarações emotivas, maior a audiência. Pena que, no meu caso, esta maior audiência não implica em um maior salário. Ah, mais deixa a edição terminal, que meu chefe vai é escutar. É um absurdo!”
Intervalo comercial. A jornalista saca seu celular e o liga (celulares tinham que ficar desligados enquanto o telejornal estivesse no ar). “Puta merda, agora já são oito e dez. Será que a concessionária não vai abrir? Alô. Ah, oi. Finalmente. Bom, eu quero saber quanto está custando a Mitsubishi Pajero. Quê? Tudo isto? Você tá é louco! Não, o pagamento não vai ser a vista. Mas como assim não tem desconto então? Eu quero dividir em seis vezes só. Hoje em dia vocês dividem em até 60 meses!” Ela desliga o celular. A contagem regressiva de cinco segundos termina e ela volta ao ar.
“É, esta vida não é mole não. Vou ter que continuar com este celularzinho mesmo, que até o padeiro da esquina já tem, e com meu carro 2008 por mais uns meses. Ah, e vou ter que continuar dando estas notícias, né, fazer o quê? Pouco me importa o que eles estão mandando ou não pro Haiti. Não quero saber se são 100 ou 200 mil mortos. Por que estes idiotas gostam tanto de saber da vida dos outros? Ahh, se pelo menos eu tivesse ganhado na mega-sena da virada. Estaria é bem longe daqui, de carro zero, celular novo, tomando um solzinho em alguma ilha grega. Ah, vida...”
quarta-feira, 17 de abril de 2013
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Mamãe,
Estou morrendo de saudade!!
Meu apartamento está precisando de uma boa faxina...
Quando você vem para cá?
Te amo!
Filhinho querido
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